1 de fevereiro de 2016
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Receita de economia criativa com ingredientes locais

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Por Adriana Campelo para Gente & Mercado

PhD pela University of Otago na Nova Zelândia. Professor visitante na Cardiff Business School no Reino Unido. Diretora do Trabalho da Secretaria de Desenvolvimento de Salvador.

Economia criativa é um conceito em construção. Para a ONU, é a interface entre criatividade, cultura, economia e tecnologia. Os principais recursos dessa indústria são o capital intelectual e a criatividade. A economia criativa não é uma nova onda. Longe disso, trata-se, na verdade, de um vetor de crescimento iniciado como parte do controverso legado de Margaret Thatcher. A chamada ‘indústria do futuro’ alinhava cultura e tecnologia e foi estimulada como política de desenvolvimento em resposta à depressão pós-industrial britânica. A implantação do Creative Industries Quarter (quarteirão de indústria criativa) de Sheffield, em 1988, a primeira tentativa de materializar tal política. Nos anos 90, a indústria tomou fôlego. Cultura passou a fazer parte do léxico da ‘nova’ economia quando Tony Blair lançou a agenda para a nova indústria criativa em 1997. Enquanto isso, desde 1994, movimento similar acontecia na Austrália por meio de uma política cultural batizada Creative Nation (nação criativa).

Como visto, economia criativa não é o último lançamento da estação. É um conceito em construção porque tem natureza flexível e multidimensional. Baseada na identidade cultural, tem vínculos com a realidade local, com a arte, com a história e com os modos de viver que podem se transformar em atividades econômicas. Os principais ativos dessa indústria são intangíveis: a criatividade e a inovação. Ativos apontados pela ONU como motores para o desenvolvimento econômico posto que é a indústria que mais cresce no cenário global. Em 2013, cresceu 13% e injetou $ 79 bilhões de libras na então recessiva economia Britânica. Já na Dinamarca, a economia criativa tem foco em design (arquitetura, games, móveis) e representa 10% das exportações.

Por que, então, o espalhafato em torno do tema? Três aspectos influenciam o aquecimento dessa indústria: primeiro, a necessidade de buscar indústrias limpas e ambientalmente sustentáveis; segundo, o novo conceito do trabalho que valoriza sinergia de competências; e terceiro, a globalização, ao contrário do que se temia, não homogeniza culturas. Entretanto, evidencia diferenças. Tais diferenças se traduzem na identidade local que é insumo para economia criativa. Grosso modo, essa indústria engloba artes, arquitetura, design, tecnologia da informação (TI), publicidade, moda, editoração, gastronomia etc. A lista de setores não é conclusiva e varia de país para país, de uma cidade para outra. Assim, o desenvolvimento deste ou aquele setor está vinculado à cultura local. Não existe, portanto, uma receita pronta para ser replicada indistintamente em todas as cidades ou países.

É a singularidade da cultura local que determina quais setores devem ser estimulados e cultivados. No que tange a Salvador, o território é fértil! Temos muitos casos de sucesso. Os ingredientes desta receita estão no repertório soteropolitano de talentos. Setores como TI, gastronomia, para citar alguns, precisam colocar temperos para fortalecer mercados e criar novos. TI, por exemplo, precisa olhar para fora das empresas e fazer conexões entre ideias, consumidores e mercado. Já gastronomia tem uma mina preciosa nas culinárias africana, portuguesa e baiana que pode ser resgatada, retrabalhada no contexto atual e reapresentada aos consumidores. Esses e outros setores da economia criativa em Salvador têm um enorme potencial de negócios. Se os ingredientes estão disponíveis, precisamos criar a receita.

No modo de fazer precisamos: Adicionar parcerias e colaborações capazes de co-criar valores e ampliar o impacto da indústria criativa. Incluir design como ferramenta de inovação. Design de processo para planejar produtos, serviços e sistemas que atendam às aspirações dos usuários, bem como promovam a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Acrescentar foco no consumidor – que é co-criador das experiências de consumo – e agente de mercado. É o consumidor quem decide o que faz sucesso ou não. Adicionar desenvolvimento de marcas que funcionam como devices de comunicação capazes de promulgar nossa identidade cultural. Por fim, várias pitadas de empreendedorismo social porque indústria criativa tem natureza inclusiva.

Economia criativa é um vetor de desenvolvimento em construção porque seus recursos se renovam. Não existe um modelo pré-definido, mas soluções contextuais. Nessa receita, o fermento está na criatividade e na inovação.

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