6 de março de 2017
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“O principal update não é do seu device”, afirma sócio do Update or Die

Gustavo Giglio (Foto de Melina Kato)

Crédito: Melina Kato

No Brasil, é inegável o potencial individual e coletivo nas áreas criativas, como as de música, games, publicidade, moda, design, gastronomia e assim por diante. Mas para o publicitário Gustavo Giglio, ainda nos falta maturidade para valorizar os serviços da Economia Criativa e entender o momento pelo qual estamos passando. “Como você paga por uma ideia?”, ele questiona.

Com experiência como gerente de marketing e comunicação na Trip Editora e jurado em eventos como a Bienal Brasileira de Design Gráfico, o Prêmio Abril de Publicidade em Criação Digital e Native Ads e o Troféu HQMIX, Giglio está em constante contato com exemplos de projetos inovadores e inspiradores, como o Think Eva, o Festival Path e o site Update or Die, no qual ele, inclusive, é sócio-diretor de marketing e novos negócios.

Em entrevista ao Observatório, Giglio fala sobre a ascensão dos modelos de produção como o do Update or Die, que investe em conteúdos colaborativos sobre arte, criatividade, tecnologia e novas mídias. Além disso, o publicitário avaliou os pontos fortes e fracos do nosso mercado criativo e a condição dos profissionais que trabalham nessas áreas. Para ele, por exemplo, a figura do curador é, hoje, mais importante do que a do produtor ou influenciador. “Sinto que há a necessidade de passos para trás”, afirma. Leia a entrevista completa:

No Brasil, os últimos levantamentos apontam a Economia Criativa como umas das áreas mais promissoras. Como você avalia esse setor no país a partir das pequenas iniciativas?

Entendo que por bons exemplos recentes muita gente olha com bons olhos para a área e quer se aventurar. Somos reconhecidamente muito criativos. É cultural e faz parte de nossa história. Na verdade, no Brasil, é muito mais abrangente. Economia Criativa, aqui, é o teatro, música, literatura, o gigante e mau das pernas mercado editorial, audiovisual, animação, games, publicidade, rádio, TV, moda, arquitetura, design, gastronomia, artesanato, entretenimento, eventos e por aí vai. Infelizmente, não temos muitos incentivos e empresas grandes que podiam, também, incentivar com diversos tipos de envolvimento. Mas é inegável o potencial individual e coletivo na produção e entrega de serviços criativos. As pequenas iniciativas estão expandindo novas formas de comunicação e o seus usos na indústria e mercado.

Como jurado de vários prêmios do setor, o que você tem conhecido de projetos? Você está animado com a produção criativa brasileira? Por quê?

Sim e não. O que me anima é saber das possibilidades e da descentralização do mercado (a publicidade, por exemplo). Mas ao mesmo tempo, muito conteúdo ruim está sendo produzido e compartilhado com ares de grande novidade e algo realmente inovador. Muito se copia, muito se apropria e o pouco que se cria nem sempre está baseado em um conteúdo realmente diferenciado. Parece que o sarrafo baixou e muito. De qualquer forma temos excelentes exemplos inovadores, inspiradores e que já são referência, como o Think Eva, 7CUMES, Bebel Books, Hack Town, Festival Path e, talvez, o próprio Update or Die.

Quais recentes exemplos nos setores da Economia Criativa, Colaborativa e Compartilhada mais te chamaram a atenção?

Na verdade, o que me chama mais a atenção é a velocidade com que algo aparece, cresce, muda comportamentos e, antes de amadurecer, perde a linha e piora muito. O Uber por exemplo. Mas muito tem sido feito com produtores locais, muitos projetos saem do papel e ganham o mundo graças às colaborações. Como os exemplos acima.

O que acha que ainda podemos alcançar? Quais são as nossas maiores dificuldades?

Maturidade. Como em tudo. Para não morrer, como citei. Podemos deixar ainda mais claro a importância destes serviços criativos para que a indústria criativa enxergue a diversidade deste universo. Para quem produz, mensurar melhor os valores, caprichar mais nas entregas e não endeusar qualquer coisa. Aqui, é um pouco diferente, são valores intangíveis e não bem definidos como a de um produto. Como você paga por uma ideia? Uma boa ideia que pode mudar para sempre o seu negócio? A dificuldade é entender o nosso momento. Tudo cada vez mais funcionando em grandes redes e através de pequenos nichos cada vez maiores. O colapso que a indústria da comunicação passa, por exemplo, é entender – enfim – que profissionais, produtores, curadores e agências precisam ser remunerados por qualificação e não por número de audiência.

Na velocidade das informações de hoje em dia, o profissional das áreas criativas precisa estar constantemente atualizado, como sugere o nome do site “Update or Die”. Para você, quais novidades mais impactarão o dia a dia do trabalho dessa área e o que os profissionais podem fazer para acompanhar o ritmo das mudanças?

Algo que falamos por aqui (e acreditamos) é a necessidade de entendermos que vivemos em um mundo (logo, em um mercado) “impermanente”. E essa palavrinha é especial. Continuo acreditando que não são as plataformas ou as novas tecnologias que vão mudar comportamentos. A nossa curva de adesão é cada vez mais rápida. Se o conteúdo é bom, ele vai se sustentar em qualquer plataforma. Do papel à realidade Virtual. O principal update não é do seu device. Sinto que há a necessidade de passos para trás. Por exemplo: a meu ver, a figura de curador de conteúdo hoje é muito mais importante da que de quem se autodenomina produtor ou influenciador. Com tanto acesso e facilidade, informações de todas as formas chegam a nós. Em um momento em que somos leitores, autores, produtores, “curadores”, mídia, influenciadores. Então, é mais do claro, a necessidade de saber selecionar o que tem credibilidade e relevância. O jornalismo, por exemplo, precisa voltar a ter um único propósito: a verdade.

Você sente que a Economia Criativa está se profissionalizando?

Em algumas frentes, sim, claro. Pessoas mais preparadas assumem parte importante do segmento e transformam esse estilo de vida em algo mais organizado. Podendo, assim, focar no potencial individual e coletivo para manter-se produtivo.

Existe preocupação em buscar formação na área?

Não sei se formação da maneira que conhecemos há tanto tempo, mas existe a necessidade de estar sempre inserido no que está acontecendo e de buscar por sua paixões.

O “Update or Die” aposta no conteúdo colaborativo. Esse modelo já é predominante hoje em dia? Que papel ele pode assumir?

Entendemos essa colaboração de forma diferente. Buscamos apaixonados. Nada supera. Nossa missão é reunir essas pessoas, curiosas e obcecadas por natureza e construir um ambiente interessante o suficiente para as trocas (isso, digitalmente ou presencialmente). Nos últimos 10 anos passaram mais de 500 colaboradores por aqui, produzindo conteúdo e participando de projetos especiais. Hoje formamos uma das maiores e mais experientes comunidades de referência, inspiração e influência do Brasil, com diversos profissionais ligados às áreas de criatividade e que têm enorme prazer em compartilhar seus achados e insights. Ou seja, um ambiente interessante para lançamentos de campanha, uso de espaços publicitários, produção de conteúdo com oferecimento de uma marca, encontros presenciais com essas pessoas. Entre todos os tipos de influenciadores, o mais poderoso é aquele que precisa ser descoberto. Assim, temos a possibilidade de ser muito mais reais, relevantes e influentes usando pessoas de verdade e assim podemos ter a pretensão de criar relacionamentos mais duradouros.

Por Lucas Rodrigues

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