19 de outubro de 2015
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O lugar determina o sucesso da atividade e do profissional

Steven-Pedigo-no-Fórum-Belas-Artes-de-Economia-Criativa

Steven Pedigo, especialista em inovação, deixa claro que o ambiente é fundamental para o desenvolvimento de iniciativas da Economia Criativa, porque ele vai determinar a atividade e a qualidade das pessoas envolvidas e, portanto, o seu sucesso.

por Andréa Ciaffone

Paris no anos 1920, Nova York nos anos 1970, Silicon Valley nos anos 1990 e 2000. Cada um destes lugares se mostrou um centro de criatividade e produção intelectual em um determinado tempo. Hoje, com o desenvolvimento da internet e a “virtualização” das relações por meio de redes sociais, muita gente tem a impressão de que o lugar em que se deseja empreender criativamente não importa. Grande equívoco.

Durante sua palestra na 1ª edição do Fórum Belas Artes de Economia Criativa, o especialista norte-americano em inovação Steven Pedigo, diretor do Creative Class Group, desenvolveu o argumento de que o lugar (geográfico) em que uma pessoa ou uma empresa está determina seu potencial de inovação.

“A questão é: por que o lugar determina inovação? Muita gente acha que inovação surge do o que e do quem, mas pouca gente se dá conta que o onde é o elemento que dita o sucesso”, afirma Pedigo. O professor recorre a números eloquentes para fundamentar sua declaração: no planeta atualmente existem 40 mega regiões urbanas, que concentram 2/3 da economia mundial. Essas regiões abrigam 1/5 da população da Terra e são responsáveis por 90% da inovação.

Esses números são tão impactantes que chegam a parecer impessoais e é nesse aspecto que Pedigo lembra uma lição aprendida com seu mentor na Harvard Business School, Michael E. Porter, que consistia na seguinte afirmação: “Não existe economia global e sim uma coleção de economias locais”. Essa visão torna ainda mais importante que se desenvolva um senso de contexto ao empreender nas áreas criativas, segundo o norte-americano.

É inegável que o mundo está vivendo a mudança de um paradigma de produção em escala de commodities para a produção de bens intelectuais de alto valor agregado. “Essa será a maior e mais formidável mudança de curso na história econômica”, afirma. “A humanidade partiu de uma estrutura agrícola para a industrial e agora passa para estrutura criativa, já que está claro que será a criatividade que servirá de combustível para o desenvolvimento tanto da agricultura como da indústria”, completou.

Um dos efeitos que já se pode perceber dessa mudança de paradigma é a questão salarial. Pedigo traz uma comparação eloquente: em 1972, nos Estados Unidos, um jovem profissional entre 25 e 34 anos com diploma universitário poderia ganhar 22% que um sem diploma. Hoje a diferença é de 70%.

“A classe criativa é a força central da nova economia baseada em Tecnologia, Arte e Cultura, Planejamento e Gestão & Educação”, afirma o diretor do Creative Class Group, que apresentou dados sobre as dimensões da classe criativa. “No mundo são 150 milhões de profissionais. No Brasil, estima-se que sejam 21 milhões, cerca de 20% da população economicamente ativa. No Reino Unido os criativos representam 44% da força de trabalho, nos Estados Unidos, são 32%”.

Só que os criativos têm grande impacto na economia. De acordo com ele, os 20% da força de trabalho que os criativos representam concentram 50% dos salários e renda do país e representam 70% do consumo discricionário.

O terceiro ponto para o qual Pedigo chamou a atenção é que a maior parte destes profissionais mora em grandes cidades e a tendência é de concentração nas áreas urbanas. “Em 2050, 70% das pessoas estarão vivendo nas grandes cidades, o que nos obriga a prestar atenção na questão do metabolismo urbano que, ao contrário do metabolismo da maioria das espécies, se torna mais rápido na medida em que elas crescem.”

Em paralelo ao crescimento das cidades, o norte-americano aponta que a propensão é de que algumas atividades se aglutinem em determinadas áreas num processo de formação de clusters. “A ‘clusterização’ é uma força que se apresenta tanto no aspecto econômico quanto no social. Na medida em que determinadas atividades econômicas atraem um determinado perfil de profissional é natural que os locais onde esses tipos de atividades se desenvolvam e se adaptem a esses perfis de consumo”, diz Pedigo, que também citou um exemplo dos Estados Unidos: os setores que atraem mais profissionais do sexo feminino, como design, marketing e comunicação, se concentram na costa leste do país. Já os setores que atraem os profissionais do sexo masculino como informática e engenharia, se concentram na costa oeste. “Isso acaba gerando uma dificuldade em encontrar relacionamentos heterossexuais em determinadas áreas por uma questão quantitativa”, diagnostica.

A questão do desenvolvimento das indústrias criativas, de acordo com a visão do diretor The Creative Class Group, se expressa por meio da combinação de 4Ts: tecnologia, talento, tolerância e território. “Em territórios em que seja possível encontrar tecnologia, talento e tolerância no sentido de inclusão social, o desenvolvimento das atividades criativas é maior e mais rápido”, afirma.

A partir destes 4Ts, a consultoria desenvolveu um estudo em que classifica os territórios (países) de acordo com esses critérios. O Brasil se encontra em 29º lugar na classificação geral. Em tecnologia está em 27º, em Tolerância, está em 15º, mas é o item Talento que nos coloca para baixo. Nesse ranking, estamos em 68º lugar. “Para mudar isso é preciso que o governo invista nas pessoas. É preciso estimular à educação, as habilidades, a pesquisa, o desenvolvimento e neste aspecto as universidades tem um papel determinante para a evolução”, afirma Pedigo.

Na visão do estudioso, felicidade e engajamento com nossas comunidades são determinados pela superação de diversos degraus em termos de necessidades. Na base desta pirâmide estão os serviços básicos de uma cidade (transporte, segurança, saúde, acesso à tecnologia); depois vem a questão das oportunidades sociais (acesso à Educação); seguida de Liderança (é importante que existam políticas públicas que assegurem o desenvolvimento dos cidadãos); o penúltimo degrau são os Valores que determinam quem somos e em que acreditamos. Por fim, chegamos ao degrau mais alto, a Estética, no refinamento da expressão artística e pessoal.

“As cidades são os cenários físicos em que podemos explorar tudo isso. Por isso é que grandes saltos evolutivos nas artes e na tecnologia ocorreram em determinado tempo e lugar. O Jazz em New Orleans na virada do século 20, os movimentos artísticos e literários em Paris nos anos de 1920, a pop art em Nova York nos anos de 1970 e o mundo da informática no Vale do Silício são alguns dos exemplos clássicos da importância do “onde” na Economia Criativa.

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