17 de janeiro de 2017
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Entrevista: Lee Oliveira, Fotógrafo de Street Style do New York Times

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Em uma conversa sobre a sua trajetória, Lee Oliveira conta o que despertou seu interesse por moda, o início da sua carreira como fotógrafo de street style, até o desenvolvimento de seu negócio multifacetado – que hoje, além da fotografia, inclui styling e consultoria criativa – com clientes como Valentino e The New York Times.

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Do interior de Minas Gerais ao New York Times. Como foi que você chegou onde está hoje? 

Eu sou do interior de Minas, de Conceição das Alagoas. Assim que terminei o segundo colegial, quando tinha por volta dos meus dezoito anos, me mudei para Uberaba, onde trabalhei em lojas de joias e em salão de beleza. Não sei cortar cabelo e nem fazer escova, mas fazia serviço auxiliar. Logo depois me mudei novamente, para Uberlândia, onde acabei trabalhando em um call center. Sabe aquelas pessoas que te ligam para vender serviços e pacotes? Eu fui um desses. Uma das minhas amigas que conheci por meio do trabalho, foi para Londres e mantivemos o contato por um ano. Um dia ela comentou que eu deveria me mudar para lá, que seria uma boa oportunidade para mim. Naquele tempo, como vim de uma família muito simples, meu pai precisou vender muitos bens para comprar a passagem, pediu empréstimo para o banco. Então eu fui com a cara e a coragem, sem saber o que poderia acontecer. Eu só sabia que lá era um lugar que eu pertencia. Eu tinha tantas ideias…. Eu já possuía um background de moda. Minha mãe era a costureira da cidade e fazia os ajustes da vizinhança. Ela guardava os retalhos, fazia patches de tecido, que se tornavam tapetes. Quando criança, eu sempre sentava e a ajudava a fazer as dobras do tapete enquanto ela costurava. A visão que tenho da minha mãe é como uma pintura, como Matisse ou Rothko, sempre tinha uma composição. Fui aprendendo muita coisa e meu olhar criativo foi evoluindo. Me mudei e fiquei um tempo com essa amiga em Londres. Teve um momento que dormi na rua por dois dias porque não tinha para onde ir. Em Londres eu fiz de tudo.

Em Londres você tem acesso a tantas coisas, deve ter sido um choque cultural para um menino do interior...

Foi surreal para mim. Na Europa, eles são muito educados visualmente, faz parte da cultura. No início trabalhei com limpeza em casa e escritórios, em bares como garçom, fui evoluindo e promovido para supervisor. Foi quando eu conheci meu namorado, o Jamie. Eu tinha 22 anos, hoje tenho 34. O Jamie terminou o projeto dele em Londres como arquiteto e decidi passar seis meses no Rio. Acabei me mudando para Austrália com ele logo após.

Você é autodidata?

Sim. Tudo que eu achava legal nas pessoas, uma marca que eu via, alguém vestindo algo interessante, porque eu conseguia ver, eu ia pesquisar. Pesquisava desde o começo.Trabalhei em diversos lugares até chegar a fotografia, mas não parei nunca de ler livros, de ver documentários. Sempre tive interesse na moda.

Em Londres você tem um contato muito forte com moda na rua. Você entra na Selfridges, na Harrolds, e tem acesso a todas as coleções. 

É uma educação visual incrível, então às vezes, algumas pessoas passam e não veem, mas algumas passam e absorvem. A educação visual de moda em Londres foi bem diferente para mim. Quando fui para a Austrália, eu estava com uma outra cabeça, um pouco mais maduro, um pouco mais velho.

Você ficou quanto tempo em Londres?

Fiquei três anos e meio.

Dá para aprender muita coisa. O que Londres mais te agregou em termos de descoberta pessoal?

Sim, aprendi bastante, porque quando você passa por dificuldades, de não ter grana, de viver no limite do limite, você aprende muito mais do que um rico de São Paulo que vai estudar em Cambridge. Eu absorvi muita coisa, sem saber exatamente o que eu queria. Mas quando mudei para a Austrália, eu já fui com um objetivo. Eu me interessei nas pessoas, no jeito que elas se vestiam, no lifestyle, e queria trabalhar com moda. Em Uberaba eu trabalhei em lojas também, porém o que eu tive de contato com a moda era o básico. Eu não queria fazer o básico, eu queria ingressar em alguma coisa a mais, queria ter uma opinião sobre algo. Consegui um emprego na Ralph Lauren, que foi meu primeiro trabalho em Sidney. Foi uma brasileira que me deu esse emprego e me ensinou do começo: serviço ao consumidor, linguagem corporal, luxo. Ela me fez dobrar muita roupa, ler as etiquetas dos produtos, saber o que eu estava vendendo e como é o lifestyle do consumidor. Eu tive que vender uma imagem que não era a minha, eu tive que imaginar o mundo desse consumidor e implementar minha visão de moda. Para isso eu tive que estudar, ler livros, assistir documentários antigos de moda. Eu era um bom vendedor, fazia uma boa comissão.

Lee Oliveira
Lee Oliveira

Por quanto tempo trabalhou na Ralph Lauren?

Fiquei alguns anos na Ralph Lauren, posteriormente fui trabalhar em uma marca masculina chamada Calibre, onde fiquei por muitos anos. Após quatro anos, fui promovido a gerente assistente e tinha dez lojas para cuidar. Eu já tinha mais visão de moda e um contato com clientes de alto poder aquisitivo. As pessoas sempre falavam que eu fazia umas composições legais, que eu deveria expandir e estudar. Só que para fazer uma faculdade internacional, custa muito dinheiro.

Para você trabalhar precisava de um visto?

Sim, possuía visto de estudante. Eu fiz administração, um curso barato. Acabei aperfeiçoando os estudos com a Ralph Lauren, fui formando opinião. Até que um amigo, que era fotógrafo da Vogue UK há uns dez, quinze anos atrás, disse que me daria uma câmera porque achou que eu tinha um diferencial. Era uma D2X Nikon, não sabia como ligava, onde colocava, nada. A maior parte aprendi sozinho, com tutoriais.

Você pegou a câmera na mão e a foto saiu?

Não, eu fui tentando aprender. Eu abri um blog em 2010, com fotos de rua. Eu queria fazer um teste e mostrar minha visão. Eu gostei muito porque eu tive uma expressão própria, podia fotografar quem eu quisesse, meu enquadramento, uma luz que eu não sabia como seria, mas que eu teria que aprender. Fotografia é isso.

Você aprendeu sozinho ou chegou a fazer cursos?

Eu fiz dois cursos, o restante aprendi com tutoriais do YouTube. Você deve se educar porque sempre tem uma novidade, uma nova técnica que pode ser descoberta. Quantas vezes um tecido de algodão se transforma em um material totalmente novo? É a mesma história com a fotografia. Fui aprendendo sobre tudo que envolve uma boa foto de rua: a maquiagem, o cabelo, a linguagem corporal, a composição, a personalidade, entender porque aquela pessoa é adepta a um certo estilo. Investi na fotografia por sete meses até que o Jamie me instigou para eu viajar até Nova York cobrir uma rua no NYFW. Fui independente e ficava na frente do Lincoln Center, como todos começaram. Naquele tempo tinha a Independent Fashion Bloggers, The Coolhunter, The Man Repeller. Não conhecia ninguém. Fui assistir palestras, ouvir, absorver o mercado, ver como funcionava e assim comecei a fotografar a rua de NY. No início me ignoravam. Eu parei pessoas na semana de moda que me disseram não.

Nova York foi transformador para você? 

Foi, me educou bastante, porque eu tive uma visão de moda que eu nunca tive, acesso a experiências que eu nunca tinha vivido.

Você já tinha feito a cobertura da Sidney Fashion Week?

Não, eu não tinha acesso porque foi bem o começo. Eu não sabia quem era quem. Eu queria muito fotografar uma pessoa legal independente de quem ela fosse. Claro que se tiver um nome também ajuda, mas o meu interesse não era no nome. Eu me interesso em moda, não em pessoas. Percebi como as pessoas funcionam, como era o networking. Uma coisa que aprendi em casa é: se você é educado com as pessoas, você chegará em algum lugar. Depois de cobrir NY, voltei com um monte de ideias para Sidney. Não fui o primeiro a fazer street style na Austrália, eu sou da segunda geração, no começo do Twitter. Foi quando em NY, nessa primeira estação, eu conheci, em um desses eventos, uma pessoa que começou a conversar comigo do nada. Dei o meu site, que era meu blog naquele tempo. Ela analisou e ficamos em contato. No dia seguinte, ela me ligou para dizer que queria trabalhar comigo e que gostaria de fazer uma proposta. Fomos tomar um café da manhã e descobri que ela era diretora geral de comunicações da Gucci, em Milão. Antes desse encontro, eu não sabia quem era ela. Ela viu algumas fotos que fiz em Sidney e do começo de NY. Ela me fez uma proposta de começar uma parceria, desenvolver um projeto junto com a Gucci. Naquela época eu tinha 137 seguidores no Twitter, lembro direitinho. Eu perguntei para ela o porquê. Ela disse: “Você tem um olho diferente, algo novo, você vai entender mais com o passar dos anos. Estamos apenas começando”. Seis meses depois de ter retornado de NY, ainda em contato com ela, desenvolvi um projeto global com a Gucci. Eles começaram a me mandar para Hong Kong e Singapura para fazer fotos das mulheres, usando os produtos na porta das lojas – mas não como fotógrafo de evento, e sim de street style. Comecei a viajar e educar o meu olho, a visitar museus. É igual quando fazemos uma mudança. Quando eu comecei a viajar e a captar tanta informação, eu fui aprendendo e criando ideias na minha própria cabeça. Tive acesso a todos os acervos. Eu tinha acesso aos produtos da Gucci com muita antecedência, porque eu precisava saber o que eu ia fotografar para o ano que vem. Eu possuía um trendforecasting com a coleção completa, paletas de cores, tudo. Permaneci na Gucci por uns dois anos e durante esse período, eu absorvi muitas ideias para mim. Por exemplo: sabendo que no verão seguinte a tendência seria color blocking, eu usava isso em outros projetos, como em styling. Todo conhecimento que tive durante os anos, eu usei em styling e na consultoria criativa, áreas as quais eu também atuo hoje.

Você está com a Gucci até hoje?

Não, depois disso a minha chefe foi para o Valentino e me levou. Comecei a fazer o mesmo tipo de trabalho com a marca – fotos de rua e comecei a criar conteúdo.

O New York Times foi paralelo a isso?

Não, de forma nenhuma. Foi independente, eu já estava com o Times.

Quando começou o Times?

Eu comecei em 2011. Foi tudo bem rápido. Parece relâmpago, mas não, tem todo um contexto. Abri o blog em 2010, no final de 2011 eu estava com a Gucci. Quando saí da Gucci, foi quando eu recebi uma proposta do Times. Em 2012 eu estava com o Valentino e fiquei até 2013.

 

Como foi a proposta do Times?

Eles já compravam os meus trabalhos do blog. Eu sempre tive a mesma editora. Ela pegava as fotos, fazia o pedido, comprava, e toda semana tinha uma foto minha no Thursday Style, que é impresso, uma seção de estilo do Times. Eles usavam minhas fotos para montar tendências, um conteúdo, que existe até hoje. Foi quando o Instagram surgiu que me fizeram uma proposta para eu fotografar também para a rede social do jornal.

Depois dessa experiência, como foi o seu retorno ao Brasil? Imagino que muita gente te tratou de maneira diferente.

Quando as pessoas tiveram mais acesso a mim, perceberam que minha intenção é que meu trabalho seja a estrela e não eu. Sou muito sortudo e muito grato. A Mônica Mendes foi a primeira pessoa que me descobriu e marcou uma reunião para conhecer meu trabalho, quem eu era, como eu fazia. Foi então que fui apresentado para a Helena Bordon, pela Mônica. Ela queria mudar algumas coisas na Helena e viu as pessoas que eu gosto de fotografar. O que eu gosto de fotografar é o que eu gostaria de ver as pessoas vestindo. Minha fotografia, o meu julgamento. É o meu olhar na moda. A fotografia tem que ser muito bem editada, porque se tem algo errado, um cabelo fora do lugar, a foto estraga. É necessária uma conexão com o fotógrafo e a pessoa sendo fotografada. Vivenciei muito isso, tive muitas reuniões, fui assistente de fotógrafos e de stylists nas semanas de moda. Ao mesmo tempo que eu fazia street style, eu segurava sacolas para a stylist. Eu queria aprender tudo, como tudo funcionava. Fotografei muita coisa errada, e aprendi na prática. Até que tive a oportunidade de ter a minha voz, em termos de styling, de compor a foto sob o meu olhar, com tudo calculado.

A Helena foi sua primeira cliente?

A Helena foi minha primeira cliente no Brasil. Eu já fazia consultoria fora, na Ralph Lauren, onde havia o serviço de personal shopper. Para a Helena foi um trabalho completo. Me deram uma pauta de como ela queria ser e falei: “pode, mas tem que ser desse jeito”. Eu dei o meu direcionamento, mas a moda não funciona do jeito que você quer, é do jeito que é. Eu tive que estudar muito tempo para saber como é a moda, e não para saber como que eu quero. Você vê muita marca errada que quer brilhar. Como brilhar se você tem o produto errado?

Você não acha que a moda também tem essa questão de que, para uma pessoa fazer algo diferente, ela precisa vivenciar esses erros e acertos? 

Sim, claro, como na fotografia, como no styling. Através disso eu trabalhei com a Helena e fui crescendo. Eu fui criando uma visão mais ampla.

Quando vi seu trabalho achei o máximo que tinha um brasileiro fazendo o NY Times. Depois que eu fui conversar com você, notei que você exercia mais funções. Como você se define profissionalmente?

Me definiria como fotógrafo, stylist e consultor criativo. Também faço outros projetos, trabalho com marcas, com consultoria de produtos, ideias e vídeos.

Quantas viagens você faz por ano?

Por volta de 15 cidades por ano. Compareço nas semanas de moda feminina, masculina e de alta-costura. 

Você tem o privilégio de viajar para todos os cantos do mundo constantemente. Na sua visão, o que está acontecendo de mais legal? Onde está a inovação? 

Eu quero ir para Kiev. A moda parece a mesma em todo lugar, mas lá tem personalidade.

O que você diria para um jovem de 18 anos que admira seu trabalho e quer entrar para a indústria da moda?

O que te inspira? Primeiro. E quando você gosta de algum assunto, estude. Todo mundo gosta de moda, mas o difícil é entender, é saber o que funciona, seja em foto, em styling, em escrita. Eu não consigo escrever, mas eu sei te dar um conteúdo para você escrever. Acho que a moda está desconectada das pessoas, elas ainda querem fazer tudo para si. 

 

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