30 de setembro de 2015
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Criatividade, riqueza e poder

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Palestrantes e participantes do Fórum Belas Artes de Economia Criativa ouvem cases de sucesso, discutem o presente e analisam o futuro das atividades criativas.

Por Andréa Ciaffone

Foram nove palestras, com a participação de 12 especialistas em Economia Criativa que deixaram bem claro que o futuro é dos profissionais que usam o gênio humano para tornar a vida das pessoas mais prática, divertida e interessante.

“Nada pode ser mais coerente com a celebração dos 90 anos da Belas Artes do que refletir sobre o papel dos criativos na sociedade e na geração de riquezas”, diz a diretora-geral da instituição, Patrícia Cardim.
“O PIB criativo no Brasil gira em torno de R$ 126 bilhões”, destacou o pró-reitor acadêmico Sidney Ferreira Leite, que também lembrou que as profissões criativas são oásis de remuneração adequada em uma época de deterioração salarial porque geram produtos de alto valor agregado.

De olho na importância estratégica da Economia Criativa como fonte de riquezas para o país, o Ministério da Cultura vem investindo em apoiar o lado empreendedor dos criativos. Em sua fala, a diretora de Empreendedorismo, Gestão e Inovação do Ministério da Cultura, Georgia Haddad Nicolau, destacou a importância do planejamento de longo prazo para as ações fomento ao desenvolvimento de setores como moda, arquitetura, design, música e audiovisual, que além de movimentarem grandes somas têm grande potencial para ampliar sua participação nas exportações brasileiras. “Nesse cenário, o apoio às incubadoras é uma prioridade”, afirmou Georgia. “Acreditamos na força da sinergia com outros órgãos”, completou mencionando o trabalho conjunto com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o apoio aos Arranjos Produtivos Locais (APLs) e as parcerias com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção das Exportações). “Estamos vivendo uma mudança de eixo e deixando de ser uma economia exclusivamente dependente das commodities para nos tornarmos produtores de bens culturais”, completou.

Essa mudança vislumbrada pelo MinC é objeto de pesquisas e trabalhos desenvolvidos pelo Creative Class Group, consultoria norte-americana especializada em competitividade, tendências demográficas e inovação cultural que tem atuação global, que participou do Fórum por meio do seu diretor, Steven Pedigo. “Estamos vivendo a maior mudança de rumo da história da humanidade porque de agora em diante a criatividade é que será o combustível do desenvolvimento das sociedades”, afirma Pedigo, que antes de se tornar o braço direito de Richard Florida, fundador do Creative Class Group, trabalhou diretamente com o mago da gestão e professor da Harvard Business School, Michael E. Porter. “Os criativos serão a principal força da nova economia que será baseada em tecnologia, artes e cultura, gestão e educação”, aponta o estudioso.  “A nova economia se desenvolverá nas cidades que terão de se adaptar e se equipar para receber os profissionais criativos e suas demandas”, observa Pedigo.

A dinâmica urbana foi o assunto do palestrante seguinte, o arquiteto Lourenço Gimenes, sócio-fundador do escritório FGMF Arquitetos. Acumulando uma carreira acadêmica com mestrado e doutorado e experiência profissional em importantes escritórios internacionais, o palestrante chamou atenção para a importância de tornar as cidades mais sustentáveis e adaptadas ás necessidades de circulação humana.

A criação de ambientes educacionais que estimulam a criatividade foi o assunto de Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare e ex-coordenadora do escritório da Unicef para São Paulo e Minas Gerais. “A escola deve criar um ambiente de comunicação e respeito aos ciclos de vida dos alunos”, disse, reforçando a importância das atitudes inovadoras no ambiente escolar para estabelecer um terreno ainda mais fértil para a criatividade. Anna mostrou a importância dos estímulos para o desenvolvimento dos criativos.

A tomada dos espaços urbanos para a criação de ambientes promotores de inovação foi o assunto da conferência online com Tristan Lebleu e Frédéric Oru, respectivamente diretor de comunicações e chefe de operações e estratégia internacional do NUMA, de Paris. O nome NUMA é resultado da combinação de “numérique”, que é a palavra em francês para digital e “humain”, humano, e resume a iniciativa que, desde 2008, une a necessidade humana de contato com a agilidade e as possibilidades do mundo digital criando eventos, ajudando startups e promovendo a inovação. As ações do NUMA trouxeram nova vida a uma área antiga da capital francesa mostrando que as tradições de luxo e boemia em Paris agora têm uma versão século 21. Na conversa com a coordenadora do curso de Mídias Sociais Digitais da Belas Artes Carol Garcia, Lebleu e Oru falaram a importância de fornecer um ambiente construtivo para os empreendedores do mundo digital e da dinâmica evolutiva acelerada dos profissionais que têm na inovação a sua principal forma de expressão. “Queremos estabelecer parcerias de longo prazo com os criativos brasileiros”, afirmou Lebleu.

As inovações tecnológicas impactam diretamente o dia a dia da O2 Filmes, produtora de bens audiovisuais como filmes comerciais, documentários e longa-metragens de ficção como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. Como trabalhar em diálogo permanente com o novo foi o tema desenvolvido pelo diretor de comerciais Quico Meirelles e pela diretora de Novas Telas, Janaína Augustin. A dupla falou dos desafios criativos para atender às demandas dos diferentes formatos digitais. “Cada meio demanda um tipo de conhecimento, exige uma forma específica de produzir, uma linguagem na medida”, diz Janaína. “Mas, no meio disso tudo existe algo que não muda: a importância de contar bem uma boa história”, diz Meirelles, que dirigiu e fez pessoalmente a locução do novo comercial para a Belas Artes, que mostra a importância de fazer as coisas de um jeito diferente. “A tecnologia evolui o tempo todo, mas a essência humana é sempre a mesma. Combinar as duas coisas na hora de contar uma história é o nosso papel como criativos”, resume. Um dos destaques da palestra foi o processo de multiplicação de formatos de audiovisual decorrente do surgimento de novas redes sociais. “O surgimento das redes sociais mudou bastante o panorama da comunicação”, observou Janaína.

A palestra seguinte aprofundou esse tema. Com a condução da professora Carol Garcia, que além de jornalista é mestre e doutora em semiótica, Daniela Bogoricin, estrategista de marca do Twitter, e Laís Orrico, consultora de soluções de marca do Linkedin para América Latina, falaram sobre o crescimento das redes enquanto veículo de comunicação em geral e como ferramenta para as profissões da economia criativa. Engajamento, empoderamento e relevância foram alguns dos conceitos discutidos pelas executivas que apontaram a importância das redes sociais como espaço para produção de conteúdo espontânea e distribuição dirigida. A capacidade das redes sociais de aproximarem pessoas e transporem limites geográficos também foi abordada.

A habilidade de atuar em escala internacional foi um dos fatores que mereceram atenção no relato do produtor de cinema Rodrigo Teixeira, fundador da RT Features e que tem no currículo uma série de filmes bem recebidos pelo público como O Casamento de Romeu e Julieta, destaques de crítica como O Cheiro do Ralo, Heleno e verdadeiros blockbusters como Tim Maia. Em sua palestra, Rodrigo contou como se envolveu com a Economia Criativa e deixou claro que, por trás de cada sucesso, há uma boa dose de risco. “Acho que o que atrasa a indústria do cinema no Brasil é a dependência de leis de incentivo. É preciso mudar de mentalidade e encarar os riscos de frente”, diz o produtor que com uma equipe de apenas 22 pessoas na produtora vem realizando projetos em vários países como o erótico Love 3D, filmado em Paris, e o terror The Witch que deu ao diretor estreante Robert Eggers o prêmio de direção no Sundance Film Festival de 2015. “Os produtos da economia criativa são resultado direto do talento e do conhecimento dos profissionais, que é resultado da sua formação e do seu repertório”, disse Rodrigo, que avalia que, cada vez mais, este setor será globalizado, o que vai exigir profissionais mais bem preparados.

“A Economia Criativa é baseada no indivíduo”, disse John Howkins em sua palestra sobre as principais tendências globais em Economia Criativa que fechou o evento. Criador da expressão e considerado a maior autoridade mundial em geração de riquezas a partir do talento, o consultor britânico reforçou que o próximo estágio da globalização será conduzido pela curiosidade, que estará no topo da cadeia de valor. Será a capacidade de despertar o interesse das pessoas que impulsionará as vendas e não o contrário. “O futuro está nas cidades”, disse ele, que defendeu a crescente diversidade étnica e cultural. “Em um cenário de dificuldade econômica, a criatividade e a inovação são ainda mais importantes”, afirma o estudioso que defende os princípios de colaboração, as redes sociais e promove as organizações independentes que se baseiam no compartilhamento de bens e ideias.

Howkins lembra que os governos costumam entregar muito menos do que prometem e, por isso, defende o empreendedorismo e a independência como caminhos para o desenvolvimento das indústrias criativas em escala global. Defensor da valorização do capital intelectual, o autor do livro “Economia Criativa – como ganhar dinheiro com ideias criativas” defende que indivíduos, empresas e governos devem se preparar para o novo cenário que a Era do Conhecimento trará para o ambiente econômico em escala global.

No fechamento do Fórum, o pró-reitor administrativo Francisco Starke destacou a importância da reflexão sobre os aspectos conjunturais da Economia Criativa e também das tendências que já se vislumbram para o futuro das profissões que tem a criatividade como matéria-prima essencial. Em sua fala, Starke afirmou a importância da educação como fonte de criatividade e destacou atuação firme e constante da Belas Artes na formação de profissionais criativos das mais diversas áreas que contribuíram para criar o mercado criativo que vivemos hoje e que nos inspiram a continuar a criar no futuro. Por fim, convidou a todos para a segunda edição do Fórum Belas Artes de Economia Criativa programada para 2016.

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Na foto em sentido horário Patricia Cardim (Diretora-Geral do Centro Universitário Belas Artes), Steven Pedigo (Creative Class Group), Andrea Bisker (Mestre de Cerimônia do Fórum) e, sentado, John Howkins (Howkins & Associates)